quarta-feira, 20 de abril de 2011

JBS planeja auditoria no Acre

Gado criado em área desmatada ilegalmente
A JBS, maior empresa global de carne bovina, informou que irá realizar uma auditoria externa este ano para averiguar o cumprimento de compromissos que serão assumidos com o Ministério Público Federal do Acre. A empresa sofreu uma ação civil pública do órgão, junto com outros 13 frigoríficos locais, sob acusação de comprar bois de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia e de fazendas listadas por trabalho análogo à escravidão.

Em entrevista concedida ao Valor, o diretor jurídico do grupo, Francisco de Assis e Silva, negou ontem as acusações do MPF, mas informou que assinará na semana que vem um Termo de Ajustamento de Conduto (TAC), no qual reiterará a política do frigorífico de exclusão de propriedades rurais com problemas ambientais ou trabalhistas.

De acordo com ele, o levantamento realizado por sua equipe mostra que nenhuma das 30 fazendas no Acre que fornecem gado bovino à JBS possui irregularidade. Ele citou dois exemplos de equívocos. Em um deles, a compra de gado teria sido feita de uma fazenda adequada, mas que entrou como irregular devido ao CPF "sujo" de seu proprietário (que teria desmatado ilegalmente outra propriedade sua). Outro caso seria o de bois devolvidos após a averiguação, no abatedouro da JBS em Rio Branco, da irregularidade ambiental da propriedade. As Guias de Transporte Animal (GTA), porém, não teriam sido canceladas, segundo Silva.

A JBS negou também ter comprado animais de fazendas com problemas trabalhistas - as GTAs não seriam da empresa, disse Silva. "As acusações do Ministério Público estão erradas e a JBS tem argumentos para ganhar a ação. Mas não vamos fazer isso. Vamos assinar o TAC", afirmou Silva. A empresa foi autuada em R$ 56 milhões pela compra de 578 cabeças supostamente nessas condições entre 2007 e 2010.

Procurado, Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, procurador da República que coordenou a ação do MPF acreano, esteve inacessível boa parte do dia.

O anúncio do MPF provocou uma avalanche de telefonemas à empresa de capital aberto, que encerrou 2010 com receita líquida de R$ 55 milhões. "Todo mundo nos ligou", disse Silva. Por isso, a JBS decidiu por uma auditoria externa, um pedido antigo tanto do MPF quanto de organizações ambientalistas, que averigue o cumprimento do TAC no Acre. De acordo com Silva, a empresa realizou em janeiro uma auditoria referente ao compromisso que tem com o BNDES, cujo braço de participações (BNDESPAR) detém 20,6% do capital da JBS.
O compromisso público da indústria com a preservação da Amazônia foi uma reação à ação do Ministério Público Federal do Pará, que corresponsabilizou a cadeia produtiva das carnes após uma ampla investigação divulgada em 2009. Na sequência, o Greenpeace Brasil lançou o relatório "A Farra do Boi na Amazônia", sobre o impacto da pecuária na floresta, formando o ambiente propício para um acordo.

JBS, Marfrig e Minerva, e os varejistas Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour, vieram a público para assumir responsabilidades. Para o Greenpeace, a notícia da suposta compra irregular da JBS é um episódio "lamentável".

"O compromisso da JBS não foi com o Greenpeace, mas com a sociedade", defendeu Márcio Astrini, da Campanha Amazônia do Greenpeace. Segundo ele, o recado da ONG, a partir de agora, é o de que a garantia de não estar "comprando desmatamento" hoje é a mesma que se tinha anos atrás - antes do compromisso acertado com o setor. Ou seja, nenhuma.
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